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quinta-feira, 24 de março de 2016

Literatura: “A Sutileza do Sangue” é um passeio pelo interior de Pernambuco.

 

Publicado em 21 de março
por Bárbara Valdez

Texto descritivo dá vivacidade e mantém o leitor conectado à trama

Numa mistura de realidade e ficção, A Sutileza do Sangue reconta a história de vida da família Ferraz, originária da cidade de Floresta, no Sertão de Pernambuco. Ao longo do texto vários acontecimentos se desdobram, o que cria, no entanto, um panorama para muito além do biográfico.

O livro foi publicado pela editora Coqueiro, em 2015, e é o romance de estreia de Andrea Ferraz, que trabalha atualmente como auditora fiscal no Recife, capital do estado. O lançamento oficial do exemplar ocorreu no último mês de fevereiro, na Livraria Cultura do Paço Alfândega, contando com mesa de debates e sessão de autógrafos.

A ideia para A Sutileza do Sangue surgiu como uma vontade da autora em reviver a história de seu pai, Adolfo. Porém o desejo não era construir algo biográfico, mas recriar o passado com tons ficcionais sem, no entanto, perder a verossimilhança com os fatos. Assim, durante uma oficina literária com o autor Raimundo Carrero, a obra se concretizou.

Sessão de autógrafos no lançamento do livro na Livraria Cultura. Foto: Facebook / Divulgação.

É interessante adentrar no universo criado por Andrea. O texto é essencialmente descritivo – o que foi uma surpresa para mim, que nunca tinha tido contato com esse estilo em romances – e isso faz com que cada cena se torne vívida. O leitor consegue sentir o que está sendo contado e, para mim, esse foi o maior mérito do livro.

“No canto dos olhos [de Adolfo], as carnosidades injetadas de sangue davam aspecto de quem sofria de dor na alma. Dor genética. Naquela família todos possuíam o mesmo olhar.” P.187

A escrita da autora tem um lirismo muito forte. Ela mantém a linguagem coloquial nordestina, mas conecta as palavras de forma poética. Isso é visível durante a leitura, inclusive são abordados temas fortes como morte, doença e crimes, mas o leitor só percebe como aquelas cenas são tensas depois de ler e refletir sobre elas. Essa estética textual também ocorre na organização dos capítulos, que alternam uma composição com várias páginas e outras com apenas duas ou três linhas.

Enquanto o texto avança, surge o trabalho esforçado, as crendices próprias de quem é ligado às tradições, as cenas com animais de rebanho. Momentos de crianças correndo na rua de terra, relatos de parteira, a construção de chapéus de couro. Com o tempo a paisagem bucólica de um Sertão de meados do século 20 se transforma na agitação do século 21.

“Dia de domingo iam para lá. Vendiam rapadura, amendoim, bolacha. Era fama sair um baleado. Baleado de cana.” P.52

Junto com a descrição das cenas, aparecem vários personagens. Alguns estão presentes por todo o livro, outros somente de passagem, porém cada um deles se liga de algum modo à família Ferraz, seja pelo sangue ou por laços de convivência.

Foto impressa no livro do casamento de Seu Adolfo. Foto: Bárbara Valdez.


Nessas questões, no entanto, posso dizer que avaliei o livro como um pouco confuso, pelo menos numa primeira leitura. Além de ser preciso assimilar nomes de muitas pessoas, a referência a cada uma delas é quase sempre feita com base no parentesco. Pelo texto ser descritivo não existe trabalho de ambientação, assim é fácil se perder na leitura e não lembrar em longo prazo qual era o papel de um personagem na construção familiar.

“Maria Ferraz, irmã de Enéias, filha única, enviuvou, nunca mais deu a ninguém. Teve uma filha, Lia, que se casou com Audísio Pajuaba, o Três Pernas.” P. 87

Isso me incomodou no livro. Acabei vislumbrando cada personagem de forma individualizada, sem uma unidade. Porém acredito que essa foi uma escolha de trabalho da autora, até pelo próprio título que ela deu: A Sutileza do Sangue remete a histórias que se conectam de maneira delicada.

Depois de terminar a última página da obra, conhecemos um pouco da família de Andrea e visualizamos seu pai, Adolfo – que aparece em grande parte da história, mas não nela inteira. Contudo A Sutileza do Sangue desdobra-se não em um retrato particular, mas passeia por todo o Sertão Pernambucano e nos faz vislumbrar o cotidiano de diversas famílias que nele vivem.

“É certo que os olhos não podem ver mais que a delicada trama que a vida manda criar”. P. 195


Informações do exemplar:
Título: A Sutileza do Sangue
Páginas: 200
Editora: Coqueiro
Preço sugerido: R$40,00
Local de venda: Livraria Cultura

Fonte: