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domingo, 9 de novembro de 2014

Testes com transposição do São Francisco preocupam comunidades

O pescador Leonilson Barbosa, 36, rema ao lado da antiga igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Petrolândia; baixo nível do reservatório de Itaparica faz cidade submersa reaparecer. Foto: Joel Silva

Impulsionada por um sistema de quatro bombas –cada uma com peso equivalente a cem carros–, as águas do rio São Francisco molharam pela primeira vez os canais de concreto da transposição.
Mas a mesma água que começa a percorrer os canais do eixo leste chega fraca nos canos da irrigação das terras do produtor de alface Arilo Farias, 28, e está longe de atingir a casa de Carmélio de Souza, 46, que planta milho e feijão em seu quintal.
Os primeiros testes da transposição, iniciados há um mês, colocaram comunidades em rota de colisão. Enfrentando forte estiagem há quatro anos, moradores veem com ressalvas o desvio das águas, que, durante os testes, não servirá às comunidades.
A captação é feita num dos principais reservatórios do rio São Francisco, o lago de Itaparica, que está com apenas 15% do seu volume útil.
Em Petrolândia, sertão pernambucano, o medo é sentimento recorrente. No perímetro irrigado Icó-Mandantes, pequenos agricultores reduziram a plantação e estão perdendo a produção de coco, melancia, cebola e hortaliças.
"Estão descobrindo um santo para cobrir outro", diz José Arivaldo Gomes, 30, que, com o início de um racionamento para irrigação, reduziu a área da cebola de quatro para um hectare.

Pescador navega em meio a galhos de árvores no trecho inicial da transposição do rio São Francisco, em Petrolândia (PE) Foto: Joel Silva

PROTESTOS:
Moradores de Petrolândia protestaram contra os testes. A Força Nacional atuou para arrefecer os ânimos e garantir o bombeamento das águas.
Cerca de 120 km ao norte, o leito do riacho do Navio, imortalizado na música de Luiz Gonzaga, é só areia.
No assentamento de agricultores na zona rural da cidade vizinha de Floresta, Carmélio vê o vaivém de caminhões e tratores que escavam mais um trecho de canais.
Com a seca, cobra celeridade nas obras, abandonadas em 2012 e retomadas este ano. "Estamos ansiosos. Soube que estão enchendo os canais e não vejo a hora de a água chegar aqui também", diz.
Diretor do sindicato rural de Floresta, Ricardo Souza diz que alguns "reclamam de bucho cheio": "Se quiserem protestar de novo, vamos contra-atacar. Precisamos dessa água".
As famílias que dependem da agricultura de sequeiro –sem irrigação– em Floresta sobrevivem de benefícios como o Bolsa Família. Pequenos trabalhos na zona urbana complementam a renda.
 
Trecho da transposição do rio São Francisco com os primeiros testes de água, no município de Petrolândia (PE) Foto: Joel Silva


Aqueduto sobre a BR-316 por onde passa água da transposição do São Francisco. Foto: Joel Silva

BOMBEAMENTO:
Desde outubro, quando as bombas foram acionadas, o nível do reservatório de Itaparica baixou. O governo nega que seja resultado dos testes.
Com o início dos testes, 5 mil litros de água por segundo passaram a ser bombeados para os canais. Aumentará para 28 mil com a obra pronta, volume um pouco menor do tratado pelo sistema Cantareira, de São Paulo.
A obra da transposição atualmente tem 12 mil trabalhadores em atividade e está 66% concluída. A previsão de entrega dos eixos norte e leste é dezembro de 2015.
A expectativa é que atenda 325 comunidades rurais no entorno dos canais. Ainda não há previsão de quando as ligações de água para as casas dos sertanejos serão feitas.
A obra, inicialmente orçada em R$ 4,5 bilhões e com entrega prevista para 2012, teve seu custo atualizado para R$ 8,2 bilhões.



Fonte: Folha de São Paulo